segunda-feira, 18 de abril de 2011

LÍNGUA AFIADA

Renegar e relegar


Por Thaís Nicoleti



Os parônimos, aquelas palavras parecidas, mas de significados diversos, constantemente provocam confusão entre os redatores. Flagrante e fragrante, inflação e infração, moção e monção, posar e pousar etc. são alguns pares de parônimos.



A troca de um por outro leva a incongruências semânticas. Veja, abaixo, um caso:



"O Jornalista e o Assassino" tornou-se um estudo emblemático sobre a dinâmica do jornalismo, em que repórteres seduzem entrevistados e estes seduzem aqueles, sempre renegando as reais intenções a segundo plano.



O redator confundiu relegar com renegar. Os termos têm significados diferentes.



“Renegar”, da mesma origem de “negar”, significa renunciar solenemente a algo (renegar a fé), abandonar convicções (renegar o socialismo), negar (renegar um crime), desprezar (renegar um filho), lançar maldição (“Eu te renego!”), abrir mão de algo (renegar o apoio de alguém), trair (renegar um amigo).



“Relegar”, por sua vez, quer dizer afastar, apartar (relegar adversários), pôr em segundo plano (relegar alguém ao esquecimento), “afastar com desdém” (relegar o parente do seio da família).



Note-se ainda que o verbo “relegar”, diferentemente do que ocorre com o verbo “renegar”, é bitransitivo, ou seja, constrói-se com dois objetos na estrutura “relegar algo a...”. Em outras palavras, não se diz “renegar algo a”, mas, sim, “relegar algo a...”. Vê-se que, ainda que se encontre alguma semelhança de sentido em alguma das acepções de um e de outro verbo, a sua sintaxe é diversa.



Certamente o redator pretendia dizer o seguinte:



"O Jornalista e o Assassino" tornou-se um estudo emblemático sobre a dinâmica do jornalismo, em que repórteres seduzem entrevistados e estes seduzem aqueles, sempre relegando as reais intenções a segundo plano.

UOL

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